Domenico
de Masi
Ele
é um glutão assumido - adora a culinária
brasileira, em especial a feijoada – e gosta tanto
de MPB que já ficou das 22 às quatro horas
da manhã ouvindo um conjunto de chorinho. Ele também
é considerado um dos maiores intelectuais do planeta
e seu nome virou sinônimo de um conceito que ele mesmo
criou: Ócio Criativo. Estamos falando, claro, do
italiano Domenico De Masi.
Amigo pessoal do arquiteto Oscar Niemeyer, Domenico visita
constantemente o Brasil, país no qual costuma fazer
palestras para um público seleto. Quando está
por aqui, gosta de dormir na rede, de preferência
em locais próximos a natureza e, se possível,
cachoeiras. Esta entrevista, exclusiva para a Interactius,
foi concedida em um jardim próximo à piscina
do hotel no qual ele se hospedou, em Campinas, durante sua
última estadia. Confira abaixo os principais trechos
da conversa com Domenico De Masi.
Interactius
- Afinal, o que é o ócio criativo?
Muitas pessoas que não conhecem meu trabalho acham
que ócio criativo é não fazer nada.
Quem me conhece, porém, sabe que eu nunca fico sem
fazer nada. Um ser humano não consegue ficar sem
fazer nada. Desde o nascimento até a morte, o nosso
cérebro pensa continuamente de dia e sonha a noite.
Portanto, a mente da alma e a mente do corpo não
ficam paradas nunca. Por ócio criativo eu entendo
a capacidade que apenas algumas pessoas têm - e que
todos deveriam adquirir - de trabalhar, estudar, aprender
e jogar simultaneamente.
Interactius – E como cultivar este ócio
criativo no Brasil, um país no qual, na maioria das
empresas, a automação acabou oprimindo o trabalhador
com acúmulo de funções ?
Essa pergunta parte de um pressuposto que eu não
compartilho: que a tecnologia chegou no Brasil para oprimir
o homem. A tecnologia chegou aqui de carro, no qual o homem
anda com seu filho ou sua amada. Está no avião,
no qual você vai de um continente para o outro, no
fogão a gás com o qual você cozinha
seus alimentos e na luz que o ilumina durante uma cirurgia.
Tudo isso é obra da tecnologia. É claro que
há o uso perverso da tecnologia: a mesma luz que
ilumina uma cidade pode ser usada para matar alguém
em uma cadeira elétrica. Então, no caso da
tecnologia no trabalho, é o uso perverso que se faz
dela que pode trazer desemprego.
Suas
idéias repercutem no mundo todo. Tem exemplos de
empresas que já adotaram sua filosofia? Há
exemplos no Brasil?
Não conheço bem as empresas brasileiras, por
isso não acredito que possa falar delas como um todo.
Mas no âmbito de uma grande empresa há quase
sempre aqueles que realizam o que chamo de “ócio
criativo”. Mas ter um sistema empresarial positivo
e eficiente não significa necessariamente o uso do
ócio criativo, pois na empresa ócio criativo
significa sobretudo a desestruturação do tempo
e do espaço, e a substituição do controle
pela motivação, do medo pelo entusiasmo. Tempos
atrás, vi o americano Tom Sellers falando sobre economia
e ele disse que as empresas americanas se sustentam no medo,
por isso não são criativas. Não foram
os americanos que produziam a máquina de escrever
mecânica que inventaram a elétrica. Tampouco
os que produziam a máquina eletrônica os que
criaram a eletrônica. Não foram as empresas
americanas que faziam válvulas que inventaram os
transistores. Nos EUA, se compra as patentes das universidades
ou quando conseguem criar alguma coisa, produz esta coisa
em unidades independentes, completamente distantes da empresa.
Porque lá a criatividade é algo completamente
diferente da produção. A indústria
americana tem 200 anos de história e toda as suas
evoluções são baseadas em como melhorar
a execução de uma idéia, como tornar
o trabalho de execução mais eficiente e como
tornar cada vez mais sofisticado o controle. O ápice
da pesquisa industrial americana é a linha de produção.
Porque nesta linha de montagem o operário é
controlado e controla outro operário, um controla
o outro. Portanto, o controle é delegado aos próprios
controlados. É a maior invenção da
indústria americana: o controle do controlado.
No Brasil acho que isso é diferente. Acho que há
muitos managers que trabalham, estudam e se divertem simultaneamente.
Por isso há grandes executivos que trabalham 15 horas
seguidas. Não creio que sejam masoquistas. Se o fazem
é porque se divertem e isso significa que estão
praticando o ócio criativo.
Poderia
falar sobre o trabalho que desenvolve em sua escola de especialização?
Nesta escola estudam jovens já formados, alguns já
com experiência de trabalho. Fazemos pesquisa em nível
superior, em especial a organização da criatividade.
O nosso objetivo é procurar entender se existem regras
para tornar eficiente o trabalho criativo nas mais diversas
áreas. Na Educação, na farmacologia,
na organização de festivais e assim por diante.
Nossa escola naturalmente é organizada de forma a
experimentar a organização criativa, assim
ela é totalmente desestruturada no tempo e no espaço.
Cada funcionário pode aparecer na hora que desejar.
Todos têm a chave do escritório e durante o
trabalho estão incluídas atividades lúdicas
como ir ao cinema, a uma exposição, fazer
amor, etc. Todas estas atividades podem ser executadas no
horário de trabalho. O curioso é que é
difícil aos funcionários acostumarem-se com
essa organização. Minha própria secretária
raramente vai ao cinema e quando eu a questiono, ela diz
que não tem tempo. Aí eu falo: eu, seu chefe,
estou mandando você ir ao cinema. O problema é
que ela, assim como quase todos os empregadores, acreditam
que o trabalho criativo deva ser medido pelo tempo que se
passa no ambiente de trabalho e não pelas idéias
que são fornecidas. Digo a ela que não me
interesso pelo tempo dela, mas por suas idéias. Se
você for ao cinema ou sair para fazer amor é
mais fácil que surjam novas idéias. E se você
não se tornar criativa, pelo menos será procriativa.
O
senhor acredita que o governo Lula poderá trazer
mudanças no sentido de diminuir as diferenças
sociais ou melhorar a distribuição de renda?
Não sei se será possível, mas esta
seguramente é a missão declarada de Lula.
Falei com ele duas ou três vezes depois de ele ser
eleito e ele me afirmou que este era seu objetivo. Conheço
pessoalmente pelo menos três de seus conselheiros
– Cristovan Buarque, Tarso Genro e Frei Betto –
e eles tem como objetivo reduzir o analfabetismo, a miséria
e a fome. Não vejo por que Lula não faria
o que quer. O problema, porém, não é
saber se Lula fará ou não. Sempre me perguntam
isso, mas deveriam perguntar: será que os Estados
Unidos deixarão Lula fazer ? Porque o país
que tem a hegemonia no mundo neste momento se apóia
e se alimenta de grandes desigualdades. Portanto, um país
que reduza as desigualdades é um país perigoso
para os EUA, na visão do liberalismo internacional.
Os EUA estão se apropriando dos Meios de Comunicação
de Massa de todo o mundo, para impor seu pensamento e sua
cultura. Na Itália, por meio de um testa-de-ferro,
acabam de comprar a maior TV a cabo e já dominam
as redes abertas e condicionaram a cultura italiana. O Brasil
é um dos únicos países com uma grande
televisão com identidade nacional, além da
França. Talvez seja o único que consiga agir
desvinculado da cultura americana e chega até mesmo
a exportar sua cultura, sua música e até sua
literatura por meio das telenovelas. Acredito que os EUA
farão de tudo para se apropriar da Rede Globo. No
entanto, os intelectuais brasileiros estão discutindo
ainda se Roberto Marinho ajudou ou não a Ditadura
há 30 anos em vez de tentar defender a Globo de hoje,
que pode sofrer o jugo de uma ditadura pior.