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A estratégia de Kasparov

Octacampeão mundial de xadrez fala, em entrevista a Interactius, sobre a importância do planejamento, da criatividade e da percepção

Seja na guerra, nos negócios ou na vida, saber traçar estratégias é fundamental quando se quer obter sucesso. Aprender e aplicar estratégias é algo presente em praticamente todos os cursos de Programação Neurolingüística, sejam eles de formação ou específicos (como o de Comunicação & ‘Negociação Estratégica, que será ministrado no próximo dia 6 de agosto). Estratégia também é fundamental no jogo de xadrez. E, sendo assim, é fácil entender porque Gary Kasparov pode ser considerado um dos maiores estrategistas do planeta.
Vencedor por oito vezes do maior torneio de xadrez do mundo, o Linares, e nove vezes consagrado campeão olímpico, Kasparov nasceu em 13 de abril de 1963 em Baku, capital do Azerbaijão. O pai, Kim Weinstein, era professor e a mãe, Klara Kasparov, engenheira. Gary aprendeu a jogar xadrez com o pai quando ainda tinha cinco anos. Depois da morte do pai, porém, o garoto trocou o sobrenome Weinstein por Kasparov.
Nesta entrevista exclusiva para a Interactius, Kasparov - que atualmente ganha a vida fazendo palestras em diversos países (dentre os quais o Brasil, no qual esteve em 2004) – fala sobre estratégia aliada a negócios e à vida em geral.


Interactius - Para início de conversa, como o senhor define estratégia?
O conceito de estratégia é muito ambíguo. As pessoas usam a palavra estratégia para qualquer coisa atualmente e muito freqüentemente para encobrir a falta de uma estratégia. Estratégia não é simplesmente uma reação a eventos. Uma forma de colocá-la é prever as conseqüências das suas decisões presentes. É importante reconhecer a diferença entre as conseqüências de longo termo e suas reações técnicas. Não quero ser crítico de negócios de sucesso nem de políticos de sucesso, mas estamos claramente enfrentando uma crise no mundo moderno entre as habilidades de negócios e a visão (ou falta de visão) das pessoas. Para dirigir um bom negócio é preciso de habilidade de gestão. O problema é que, se você vive a agenda do dia-a-dia, não consegue pensar no longo prazo. E esta contradição nós nem temos tempo de considerar. As pessoas, porém, precisam reservar mais tempo para pensar sobre visão, criatividade e intuição... e reconhecerem que essas coisas que muitas vezes soam espirituais têm grande valor material.

Como assim?
Não reconhecemos, por exemplo, que a percepção carrega valor material. É por isso que as pessoas precisam olhar para o quadro maior, para o todo. Quando se é bem sucedido, infelizmente, tende-se a ser complacente e a não querer mudar os padrões vitoriosos. Por causa disso, o sucesso presente muitas vezes torna-se o inimigo do sucesso futuro. Enquanto você está tendo sucesso, outras pessoas inventam novos modelos. No momento em que você reduz a marcha pode ser superado pelo seu concorrente. É por isso que, mesmo quando você está ganhando, tem que ser criativo. Aprendi isso no xadrez. Eu costumava jogar com pessoas das novas gerações regularmente e a razão de eu ainda estar entre os primeiros é que sempre mantive viva minha paixão por inovações.

O senhor acha que a estratégia é algo próprio da pessoa ou pode ser desenvolvida por meio de experiências ou cursos, por exemplo?
De modo geral é algo que se adquire, mas lembre-se: estratégia não é um conceito universal, tem elementos diferentes. Um dos principais é calcular suas próprias capacidades. E nós podemos ter capacidades diferentes, múltiplos objetivos. Estratégia é, portanto, sua habilidade de analisar o quadro geral e de reconhecer seu potencial e o objetivo que quer alcançar. Há diferentes fórmulas de vencer para cada pessoa, é claro, mas o mais importante é compreender sua fórmula, sua capacidade, além da habilidade analítica.

De maneira geral, porém, o senhor acha que as pessoas – no mundo dos negócios ou fora dele – sabem lidar com estratégia?
Acho que uma pequena parte das pessoas, em especial aquelas mais esclarecidas ou em posição de comando, têm consciência da importância de se traçar estratégias, bem como de se ater a elas ou mudá-las quando necessário. O problema é que mesmo estas pessoas confundem estratégia com tática. Tática é uma ferramenta planejada que você utiliza em uma situação. Estratégia é o planejamento a longo prazo, que inclui todas as suas táticas. E isso está em falta nas pessoas.

Em suas palestras, o senhor fala para platéias de empresários, principalmente. As lições de estratégia do xadrez podem ser transferidas para o mundo da gestão de negócios?
Sim. Acho que o xadrez oferece muitos conselhos úteis. Novamente, o principal é: saiba calcular seus recursos e identificar seus objetivos. No mundo do xadrez, é preciso usar todos os seus recursos para ter o máximo resultado. Hoje, porém, como a maioria das pessoas tem recursos ilimitados, muitas acabam ficam confusas na hora de utilizá-los. Um exemplo óbvio é o técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Carlos Alberto Parreira. Ele tem tantos recursos que está sempre confuso sobre quem vai convocar.

Então, na sua opinião, o mundo da administração de empresas pode ser comparado a um tabuleiro de xadrez?
Não. Xadrez tem regras (risos). Quero dizer, Tem regras fixas. Mas é possível olhar para algumas generalizações, como a habilidade de aprender a medir sua velocidade e mudar de marcha. E sua habilidade de alocar recursos em direções chave, como no xadrez, em que você tem recursos iguais aos de seu oponente. Mas uma das maiores qualidades é ser capaz de criar vantagens no campo de batalha central do jogo. É preciso ser criativo. Infelizmente, no mundo atual, essa é uma característica pouco incentivada em grandes corporações, por exemplo.

Por quê?
Ora, as grandes corporações não podem encorajar a criatividade, pois nelas é a burocracia que regula o trabalho. Nenhuma das invenções mais recentes que tiveram grandes efeitos veio das grandes corporações. Mas encorajar a criatividade e o pensar fora da caixa é importante também nas grandes corporações. O mundo corporativo agora é drenado pela técnica de gerenciamento e a técnica é identificada, muitas vezes, como um inimigo mortal da criatividade. O ideal é manter o equilíbrio. Na prática, a cultura de gerenciamento sempre domina os visionários. Na maior parte do tempo você precisa de gerentes, mas nas encruzilhadas você precisa de visionários. O problema é que, na minha visão, estamos nos aproximando de uma encruzilhada. E temos muitos gerentes.

O senhor é conhecido por ter derrotado no xadrez tanto seres-humanos quanto supercomputadores, como o Deep Blue, da IBM. Neste caso, devem-se adotar estratégias diferentes?

De maneira alguma. Em ambos os casos você tem que se preparar, estar em boa forma, manter a pressão e criar muita munição para derrotar o seu oponente. A minha estratégia para os dois tipos de oponentes é fazê-los jogar em um campo desconfortável para eles e confortável para mim, de modo que eu consiga, então, ter tempo para explorar minha criatividade, habilidade e percepção. As táticas, no entanto, é que diferem: a máquina é um oponente com características muito particulares. A diferença principal é que todo jogador humano, independentemente de seu estilo, é flexível e tem preferências por certas posições. Mas no fim do dia, o jogador forte estará confortável com jogadas diferentes. As falhas em sua força, em diferentes posições, não são grandes. Já com a máquina, você encara um oponente que não pode ser derrotado em certas posições, porque calcula como máquina. Se ela encontrar um modo de calcular para vencer, vai vencer. Mas torna-se bem mais fraca se as posições são balanceadas e se faltam elementos táticos. A tática com a máquina é empurrá-la para o território onde a avaliação é vital e o cálculo, menos importante. Isso porque máquinas estabelecem prioridades fixas, que têm números matemáticos ligados a cada elemento. Então, se há cem elementos que eu consideraria, como a segurança do rei, por exemplo, sei que essas coisas são relativas em valor e que em determinado momento minha prioridade deve ser salvar a rainha, para depois utiliza-la na proteção do meu rei ou em um xeque-mate ao adversário. Para a máquina, porém, se a prioridade for a segurança do rei, ela sempre irá salvar o rei quando ele estiver minimamente ameaçado. Por isso, em muitos casos, a avaliação pode ser marcada pelas prioridades inflexíveis da máquina. É importante reconhecer o padrão de decisões que a máquina usa, porque se você conseguir levá-la para o campo onde não se sente confortável, ela não vai ter defesa alguma.