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Revista InterActius 3

O ENGANO DO ENGANO

Um sábio oriental do século XIII escreveu: “O ser humano está em litígio. Quando é bom, pode ser superior aos anjos, e quando ruim, é certamente inferior aos animais”.
O caso do garoto que foi seqüestrado por engano em São Paulo há cerca de dois meses e morto cruelmente pelos bandidos quando eles descobriram se tratar do neto da empregada e não do filho de um empresário, exemplifica literalmente o que foi dito pelo antigo sábio.

Ficamos chocados com essa violência, entretanto ela segue sua escalada implacável, principalmente nos grandes centros urbanos. Nosso choque, porém, em praticamente nada afeta ou muda a violência. Penso até que se transforma numa espécie de prazer mórbido para muitas pessoas, que são obcecadas por certos programas de TV que vivem da dramatização desse drama (fraqueza) humano, com a desculpa de que estão informando.

Voltando ao caso do garoto, eu me pergunto: o que é um seqüestro? É quando alguém rouba e ameaça a integridade de um valor superior (no caso a vida de um ser querido) para outra pessoa, para obter desta pessoa um valor (dinheiro, freqüentemente) supostamente inferior para ela. E os seqüestradores fazem isso porque geralmente esses valores superiores são menos bem cuidados do que os considerados valores inferiores (nesse caso, dinheiro também).

Normalmente é uma forma considerada ilícita de se obter as coisas, por que é um atentado contra a liberdade do cidadão. Entretanto, convivemos diariamente com formas disfarçadas de seqüestro, como por exemplo, o roubo e a utilização de informações nos meios políticos para propósitos egoístas e não-públicos, e uma infinidade de outras formas que deixo ao leitor o esforço da busca como exercício de reflexão.

Um seqüestro em si mesmo é um engano como forma de se ganhar a vida numa comunidade humana. O que aconteceu em São Paulo foi um engano do engano. Afinal, seria menos chocante se tivessem seqüestrado e matado o garoto “certo”... Mas por quê? Seria o filho do empresário mais ou menos inocente que a criança que morreu? É claro que não.

Pensando em termos de nossa atual sociedade como um todo, creio que boa parte de nossas vidas é diariamente seqüestrada pelo pior de todos os seqüestradores, o Sr.Dinheiro.

Essa representação de valor que em grande parte das mentes (se é que podemos chamar assim) dos mais poderosos deste planeta se transformou em um valor em si mesmo. Confundiu-se a palavra com a coisa nomeada, o mapa com o território, a fantasia com a realidade.

Será que algum dia sairá em algum meio de comunicação uma notícia assim: “Empresário, por engano, paga a melhor escola de São Paulo, o melhor seguro de saúde, as melhores roupas, alimentação, moradia, para o filho ou neto da empregada”? E será que essa notícia produziria o mesmo impacto na população que a notícia comentada neste texto?

Novamente solicito ao leitor um esforço de reflexão, pois penso que falta muita hoje em dia, principalmente sobre as questões de valores.