O ENGANO DO ENGANO Um
sábio oriental do século XIII escreveu: “O
ser humano está em litígio. Quando é
bom, pode ser superior aos anjos, e quando ruim, é
certamente inferior aos animais”.
O caso do garoto que foi seqüestrado por engano em São
Paulo há cerca de dois meses e morto cruelmente pelos
bandidos quando eles descobriram se tratar do neto da empregada
e não do filho de um empresário, exemplifica
literalmente o que foi dito pelo antigo sábio.
Ficamos chocados com essa violência, entretanto ela
segue sua escalada implacável, principalmente nos grandes
centros urbanos. Nosso choque, porém, em praticamente
nada afeta ou muda a violência. Penso até que
se transforma numa espécie de prazer mórbido
para muitas pessoas, que são obcecadas por certos programas
de TV que vivem da dramatização desse drama
(fraqueza) humano, com a desculpa de que estão informando.
Voltando ao caso do garoto, eu me pergunto: o que é
um seqüestro? É quando alguém rouba e ameaça
a integridade de um valor superior (no caso a vida de um ser
querido) para outra pessoa, para obter desta pessoa um valor
(dinheiro, freqüentemente) supostamente inferior para
ela. E os seqüestradores fazem isso porque geralmente
esses valores superiores são menos bem cuidados do
que os considerados valores inferiores (nesse caso, dinheiro
também).
Normalmente é uma forma considerada ilícita
de se obter as coisas, por que é um atentado contra
a liberdade do cidadão. Entretanto, convivemos diariamente
com formas disfarçadas de seqüestro, como por
exemplo, o roubo e a utilização de informações
nos meios políticos para propósitos egoístas
e não-públicos, e uma infinidade de outras formas
que deixo ao leitor o esforço da busca como exercício
de reflexão.
Um seqüestro em si mesmo é um engano como forma
de se ganhar a vida numa comunidade humana. O que aconteceu
em São Paulo foi um engano do engano. Afinal, seria
menos chocante se tivessem seqüestrado e matado o garoto
“certo”... Mas por quê? Seria o filho do
empresário mais ou menos inocente que a criança
que morreu? É claro que não.
Pensando em termos de nossa atual sociedade como um todo,
creio que boa parte de nossas vidas é diariamente seqüestrada
pelo pior de todos os seqüestradores, o Sr.Dinheiro.
Essa representação de valor que em grande parte
das mentes (se é que podemos chamar assim) dos mais
poderosos deste planeta se transformou em um valor em si mesmo.
Confundiu-se a palavra com a coisa nomeada, o mapa com o território,
a fantasia com a realidade.
Será que algum dia sairá em algum meio de comunicação
uma notícia assim: “Empresário, por engano,
paga a melhor escola de São Paulo, o melhor seguro
de saúde, as melhores roupas, alimentação,
moradia, para o filho ou neto da empregada”? E será
que essa notícia produziria o mesmo impacto na população
que a notícia comentada neste texto?
Novamente solicito ao leitor um esforço de reflexão,
pois penso que falta muita hoje em dia, principalmente sobre
as questões de valores.
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