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Quando
seremos adultos?
À
parte de toda alegria tropical, vivemos em um mundo estranho
neste país. Temos que aceitar as regras do jogo, mesmo
sabendo que estão sempre mudando ou não são
quase nunca o que parecem. É praticamente inevitável.
Essa é a sensação mais freqüente.
Refiro-me basicamente a questões que têm a ver
com o modo de vida comunitária nesta sociedade. Por
exemplo, o âmbito político, público, por
onde transitam os governantes do país, dos estados,
das cidades. Sentimos-nos, como indivíduos, cada vez
mais obrigados a assistir passivamente a tragicomédia
das ações corruptas desses “representantes”
do povo.
A imprensa deflagra o escândalo - com números,
nomes, e endereços - e já nem ficamos horrorizados
ou furiosos. No máximo nos deprimimos um pouco. O mais
comum é que façamos piadas e gozações.
Acabamos calados, comemos a pizza que eles fazem e completamos
a digestão dando risada. E essa passa a ser toda a
conseqüência explícita.
O jogo de xadrez do mundo político e econômico
é muito complicado e obscuro para o cidadão
comum. São muitos tabuleiros ao mesmo tempo, e o movimento
de uma peça em um deles determina o movimento de outra
em um tabuleiro completamente diferente. As regras de movimentação
são modificadas constantemente, de acordo com as necessidades
impostas por aqueles que detêm as maiores riquezas,
e também por suas ambições de poder cada
vez maiores.
Houve uma época em que detectar os mecanismos de manipulação
servia para poder impedi-la. Hoje, não mais. Sabemos
como funciona a relação de algumas seguradoras
com o roubo de automóveis e continuamos pagando seguros.
Sabemos como os políticos criam a aparência de
integridade através de estratégias modernas
de marketing veiculadas pela mídia, mas continuamos
votando na mesma escória, ou na “menos pior”.
E por que agimos assim? Porque ignoramos limites. Estamos
vivendo a adolescência de nosso país. Usamos
as regras de acordo com nossas conveniências. Estamos
buscando nossa identidade como adultos e ainda, frequentemente,
nos sentimos e agimos como crianças. Nessa perspectiva
valorizamos as coisas por seu tamanho: quanto maior, melhor.
Nos orgulhamos do tamanho de nosso país, da quantidade
de recursos naturais. Como crianças, nos identificamos
com o promissor e fantástico futuro (quando crescer
serei o maior). Negamos o presente, não vendo, não
agindo. Temos pouca resistência à frustração
propiciada por aquilo que não vai bem e escapamos pela
fantasia. Nos satisfazemos com a vitória da seleção,
nesse combate lúdico entre paises, e assim esquecemos,
ou diminuímos a importância do combate vital
do dia a dia.
E a educação, venceu? E a saúde? E a
justiça social? E o alimento para todos? E a honestidade?
E a cultura? E a qualidade de vida? O futebol é um
esporte maravilhoso, mas é um esporte, ainda que nas
últimas décadas tenha se tornado também
um grande negocio para empresários e - para aqueles
menos favorecidos socialmente – uma grande oportunidade
(quase lotérica) de em pouco tempo se tornar rico e
famoso. Mas o futebol continua sendo em sua essência
uma atividade lúdica, um esporte, a fantasia, metáfora
de um combate.
Talvez nos apeguemos tanto ao futebol porque ele é,
em certa medida, uma atividade com regras claras. E quando
o juiz erra (consciente ou inconscientemente) contra o nosso
time, nos enfurecemos de verdade, e assim ensaiamos a atitude
que deveríamos ter em nossa realidade diária.
Fica, então, a pergunta: quanto tempo falta para que
alcancemos a maturidade da vida adulta e possamos atuar -
de verdade - e sermos seres humanos verdadeiramente adultos?
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