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Dentro
e fora
Há
duas dimensões em nossa experiência, cuja diferenciação
é fundamental para que alguém possa realmente
se desenvolver como ser humano. Essas dimensões são,
simplesmente, o que está dentro e o que está
fora. O que pertence e o que não pertence. O conteúdo
e a embalagem.
Em termos mais específicos, podemos exemplificar isso
falando a respeito das imagens que percebemos a nossa volta
através de nossos olhos, e as imagens que percebemos
em nossa mente através de nossa memória e imaginação.
Podemos também escutar a voz de alguém dizendo
algo neste exato instante (externo) ou lembrar de algo dito
por alguém momentos atrás (interno).
Esta diferenciação pode parecer algo primário,
entretanto as maiores confusões em nossa vida são
decorrência de sua não-observância. No
plano biológico, físico, nosso sistema imunológico
é um dos encarregados de saber e separar o que é
nosso do que não é, assim como nosso intestino
separa o que serve do que não serve.
Nossa integridade corporal depende profundamente do bom funcionamento
desses sistemas. Isso tudo tem a ver com o estabelecimento
de limites, fronteiras. No plano mental e emocional, nossos
valores, crenças e critérios cumprem essa função
de estabelecer o que deve ou pode ser incluído ou excluído.
A diferença básica entre o nível biológico
e o psicológico é que, no primeiro, os limites
e fronteiras são bem menos flexíveis que no
segundo. Basta observarmos os diferentes costumes em diferentes
culturas para comprovarmos essa afirmação. Todo
ser humano tem que comer, dormir, respirar e se reproduzir,
mas muitos podem viver muitos anos sem ler, escrever, ter
automóvel, ver televisão ou mesmo usar roupas.
Portanto a área mais propícia à confusão
entre “fora” e “dentro” é a
psicológica. E é ela que justamente mais nos
diferencia dos demais animais e que nos possibilita o desenvolvimento.
Um recém-nascido, do ponto de vista perceptivo faz
poucas diferenciações se comparado a uma criança
de sete ou oito anos de idade ou um adulto. Para um bebê,
as pessoas não têm rosto até aproximadamente
o primeiro mês de vida, quando ele começa a perceber
tal configuração, e mesmo assim não sabe
ainda diferenciar o de sua mãe do de seu pai, tio,
ou o de uma boneca. Isto é algo conhecido dos psicólogos
experimentalmente há mais de 50 anos.
Podemos afirmar que, no princípio, percebemos (ou somos)
mais o todo do que as partes que o compõem. À
medida que nos expomos a algo por mais tempo, começamos
a perceber as partes que integram esse algo, seus limites
e fronteiras. Quando começamos a nos diferenciar do
que está à nossa volta, principiamos a perceber
a diferença entre dentro e fora, eu e os outros, e
então tem inicio aquilo que tanto ocupará nosso
tempo ao longo de toda a vida: as relações.
Concomitantemente à percepção daquilo
que é diferente, aprendemos de maneira natural a perceber
aquilo que é semelhante. A partir disso podemos também
intuir que a sabedoria na arte das relações,
ou na habilidade de desenvolver bons relacionamentos, está
nas aprendizagens obtidas no repetido trânsito entre
os opostos: dentro-fora, meu - teu, certo-errado.
É claro que estou falando de um trânsito cognitivo,
emocional, sensorial. Quando me sento em algum lugar tranqüilo,
por exemplo, e começo a pensar no que realmente me
pertence, com a real intenção de encontrar e
compreender a verdade do assunto, e tomo consciência
dos meus sentimentos e sensações, estou nesse
trânsito.
Mas onde quero chegar com tudo isso? Equilíbrio, harmonia,
beleza, amor, verdade. Vivemos numa época e cultura
onde esses conceitos e muitos outros são constantemente
banalizados em nosso cotidiano em prol de uma visão
superficial da vida, em que a riqueza material (o ter), associada
ao poder sobre os outros e a natureza, é priorizada
na maior parte das situações e decisões
que são tomadas. O que inevitavelmente nos conduz de
volta ao tempo das cavernas.
Creio que boa parte desse desequilíbrio reside no excesso
de atenção no que está fora e pouca no
que está dentro. Muito enfeite e pouco conteúdo,
muita qualidade e sofisticação de imagem e pouca
qualidade e sofisticação de sentimentos. A ponto
de se confundir e preferir o virtual ao real. Quem nunca ouviu
alguém que, ao apreciar uma bela paisagem, exclama:
“Parece que estou num filme ou num cartão postal”?
A indústria de alimentos vive de sabores artificiais,
da ilusão da verdade. Confundimos nosso ser com a imagem
refletida no espelho. Os políticos em geral se ocupam
mais da criação de uma imagem “convincente”
do que da realização daquilo que efetivamente
supra as verdadeiras necessidades do povo. É isso o
que você quer para sua vida? Me engana que eu gosto?
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