Sob
o domínio do medo Viver
no Brasil nunca foi sinônimo de vida fácil. Nos
últimos tempos, no entanto, soma-se cada vez mais às
mazelas do dia a dia uma palavra que por si só já
invoca medo: violência. Não bastassem os já
amplamente praticados atos de latrocínio e homicídio,
o cidadão comum agora é também vítima
de crimes bárbaros, muitas vezes sem nenhum tipo de
objetivo a não ser o de espalhar o terror. Que o digam
as vítimas dos ônibus queimados por bandidos
no Rio de Janeiro e São Paulo.
Nem mesmo crianças são poupadas. Do caso pavoroso
do menino carioca João Hélio, preso ao cinto
e arrastado no asfalto por quilômetros a fio rumo a
uma morte desnecessária, às dezenas de crianças
que, semanalmente, são atingidas por balas perdidas,
os relatos só aumentam em número e grau de crueldade.
Em meio a este mar de violência e impunição,
o brasileiro tornou-se refém do medo.
Já é grande o número de pessoas que já
não sai de casa, tem medo de usar o mais simples relógio
em público, vive em total estado de paranóia
em relação a si, aos filhos, aos parentes e
amigos. É possível conviver de maneira saudável
em meio a tanto medo? Não estaria o temor se transformando
em um grande aliado dos criminosos, somando forças
ao inimigo?
Para responder a questões como esta, Interactius entrou
em contato com um dos maiores especialistas em medos e traumas
do planeta. Sinônimo de hipnose em todo o mundo e pioneiro
no uso da Hipnose Ericksoniana no tratamento de traumas, Stephen
Paul Adler que estará em Campinas em junho de 2007
para ministrar um curso de Formação, fala nesta
entrevista sobre o poder do medo e o que devemos fazer com
ele.
A população brasileira vive cada vez
mais assustada com a violência desde o começo
deste novo século. É possível viver em
permanente estado de medo? Ou uma pessoa deve reagir contra
seus próprios temores?
Stephen Paul Adler- Sentir medo em decorrência da violência
que nos cerca é uma resposta saudável à
realidade. É preciso, porém, desenvolver reações
realistas aos perigos possíveis da sociedade e tomar
as medidas necessárias para se reduzir os fatores de
medo. Quando começamos a agir baseados unicamente em
um medo, podemos tomar decisões nada saudáveis
e pouco efetivas. Veja, por exemplo, as respostas baseadas
em medo que o governo americano dá ao mundo... Se uma
pessoa experimenta o medo a ponto de se sentir realmente sem
saída no mundo, ela pode lidar inteligentemente com
suas reações e perceber que seus temores são
apenas ansiedades que a distraem e não a deixam perceber
que pode haver situações em nossas vidas nas
quais estamos realmente em grande perigo e muitas vezes indefesos.
Como podemos fazer isso?
Precisamos prestar atenção ao poder que nós
temos. Treinar a nós mesmos para reduzir nosso estresse,
meditar, praticar auto-hipnose, fazer exercícios psicológicos
baseados em nossa neurobiologia, procurar crescimento espiritual,
aumentar as habilidades psicológicas para processar
situações traumáticas quando elas acontecem
sem desenvolver PTSD (Síndrome de Desordem Pós-Traumática).
Tudo isso pode melhorar a qualidade de vida e reduzir os medos.
Se é impossível não ter medo,
como se deve viver com ele de maneira saudável?
Medo, dor, raiva... tudo isso é parte do ser humano.
Para não se experimentar medos realistas, uma pessoa
teria que se dissociar da humanidade e conseqüentemente
responderia à vida de maneira nada saudável.
O que temos de fazer é encontrar modos produtivos de
lidar com nossos medos e enfrenta-los. A auto-hipnose, ao
integrar a mente, o corpo e a alma, é uma habilidade
que ajuda a tolerar e entender situações que
às vezes são intoleráveis em uma situação
normal. Desta forma, nos ajuda a equilibrar a vida em uma
sociedade violenta. Muitas estratégias Ericksonianas
nos ajudam a atingir um equilíbrio próprio que
nos leva a lidar melhor com as coisas boas e ruins que acontecem
em nossas vidas. Coisas boas e ruins que acontecem em nossas
vidas.
Como uma vítima de violência pode superar
seus traumas e voltar a uma vida normal?
Um trauma rouba nossas perspectivas, alegrias, tranqüilidade
e conexões íntimas com os demais e com o mundo.
É necessário e totalmente possível curar
os danos causados por experiências traumáticas
e é necessário caso queiramos retomar nossas
vidas por inteiro, de maneira rica e expandida. A hipnose
é uma das muitas boas ferramentas que ajudam neste
processo. Os traumas quebram nossa habilidade para nos comunicar
com o mundo exterior e o interior. Toda boa comunicação
é hipnótica e quanto melhor conseguimos dialogar
com nós mesmos, melhor conseguimos lidar com as realidades
da vida. Um trauma interrompe nosso processo de aprendizado
e então passamos a basear nossas decisões em
aprendizados incompletos. Se baseamos decisões em informações
parcialmente completas, não teremos condições
para tomarmos decisões que serão funcionais
e, com a repetição deste processo, nos transformaremos
em eternas vítimas. Traumas levam à regressões.
Regressões prejudicam a percepção, a
vítima pode retornar a uma percepção
infantil, o que acaba levando a uma percepção
de que o evento traumático ocorreu por culpa da própria
vítima. Essa crença incorreta e negativa passa
a modelar as respostas da vítima para o mundo. A Hipnose
Ericksoniana trabalha para trazer de volta a perspectiva perdida
durante a experiência traumática e dissolve o
sistema de crenças negativas.
Pessoas que não passaram por experiências traumáticas
também temem se tornar a próxima vítima.
Muitos passam a ficar mais em casa, evitam sair a qualquer
custo, compram armas e aparelhos para se defender. Quanto
uma pessoa deve mudar por causa do medo? O que é saudável
e o que é paranóia?
Pessoas como estas correm o risco de só aumentarem
seus medos e se desconectarem do mundo real... a maioria delas
acaba desenvolvendo uma postura paranóica. O medo tem
pouca ou nenhuma força quando enfrentado. Viver na
sombra do medo só aumenta a possibilidade de se tornar
uma vítima no futuro.
Há alguma diferença entre níveis
de trauma causados por violência? Uma vítima
de seqüestro ou alguém que testemunhou um assassinato
enfrenta o mesmo trauma de alguém que sofreu um ato
terrorista, por exemplo?
Cada pessoa responde de seu próprio jeito específico
a um trauma. Traumas ocorrem quando nossa habilidade natural
de entender e lidar com um problema é sobrepujada por
uma experiência. Uma vez que isso ocorre, tanto o impacto
de um seqüestro ou de um ato terrorista resulta em um
PTSD.
Considerando-se que qualquer um pode ser “a
próxima vítima” da violência, que
conselho o senhor daria para um cidadão brasileiro
viver melhor e sem medos exagerados?
Uma vez que você adota a mentalidade de uma vítima,
se visualisa como “ a próxima vítima”,
a probabilidade de se tornar uma aumenta. Levando-se em conta
o tamanho da população brasileira, a probabilidade
de você ser a próxima vítima não
é tão grande. Lembre-se: o que você acredita
e apóia internamente tem mais chances de se manifestar
exter-namente. É melhor trabalhar em prol de ações
que irão mudar as situações reais que
contribuem com a violência do que achar que podemos
nos esconder dela enquanto as causas sociais permanecem. Há
técnicas definitivas (tanto da Hipnose Ericksoniana
quanto da resolução neurobiológica de
traumas) que melhoram nossa habilidade em passar por traumas
e lidar com eles, sem perder a perspectiva e desenvolver um
PTSD. Em um mundo no qual o nível de frustração
e a violência só aumentam, assim como vamos à
academia para fortificar nosso físico e melhorar a
qualidade de vida, essas técnicas podem deixar mais
fortes nossa habilidade em lidar com traumas e processa-los
de maneira mais saudável e produtiva.
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