Os
dois lados da moeda Fernando
Dalgalarrondo
Parte de nossas vidas gira em torno de decisões sobre
o que podemos chamar genericamente de “pares de opostos”.
Isso está certo ou errado? Tal pessoa é boa
ou má? Faço isso agora ou depois? Minto ou digo
a verdade? Falo ou calo? Conservadorismo ou criatividade?
Novo ou velho? Conhecido ou desconhecido? E por aí
vai.
Eros e Tânatus, como indicou Freud, o principio da vida
e o da morte, em suas expressões concretas e simbólicas.
A mecanicidade, condicionamento ou programação
representando Tânatus. O orgânico, flexibilidade
e criatividade, representando Eros. São os dois lados
da mesma moeda: um não existe sem o outro. Nossa consciência
pode freqüentemente contemplar essa maravilhosa dança.
Ao mesmo tempo que meus dedos percorrem automaticamente as
teclas do piano (sem que eu tenha que controlar movimento
por movimento), executando uma suíte de Handel ensaiada
centenas de vezes, posso ouvir e acompanhar a melodia tocada
imprimindo-lhe meus sentimentos através de mínimas
mudanças na força, tempo e velocidade com que
pressiono as teclas, tornando assim esse desempenho presente,
numa execução criativa e única. É
o que se chama normalmente “interpretar uma obra”.
Sem o “mecanismo”, a automação,
seria impossível desenhar, pintar, tocar ins- trumentos,
dançar, etc. Ao mesmo tempo, se não pudéssemos
criar, todas essas atividades seriam sempre iguais, repetitivas,
sem absolutamente nada de novo. Portanto é preciso
viver para poder morrer, e morrer para poder viver.
A primeira afirmação da frase anterior é
compreendida facilmente até por crianças, mas
a segunda afirmação só é dificilmente
compreendida, inclusive por adultos reconhecidamente inteligentes.
Como afirmavam os sábios da antiguidade: “é
preciso morrer antes de morrer”. Para que algo comece,
algo deve terminar. Os finais e os começos podem variar
entre mais lentos e mais abruptos, entretanto não existe
um sem o outro.
Morrer em vida significa, ao menos em linguagem mística,
abandonar velhos condicionamentos, apegos, e hábitos.
Significa tornar-se uma “nova pessoa”. É
o que as igrejas de todas as crenças chamam em geral
de conversão. O problema com as igrejas é que
trocam um sistema de condicionamento por outro, aquele que
lhes é mais conveniente para exercer poder sobre os
fieis, e assim impor sua própria mecanicidade.
O que propomos na PNL é o desen-volvimento da capacidade
de observação e auto-observação
do indivíduo de modo que ele possa se apropriar de
sua capacidade mecânica para que possa utilizá-la
criativamente de acordo com suas próprias necessidades
evolutivas. O que pode parecer fácil, mas não
é.
É por tudo isso que as palavras “equilíbrio”
e “harmonia” são tão freqüentes
na boca dos velhos mestres. É preciso considerar ambos
lados da moeda. Nossa tendência é escolher o
lado que parece mais conveniente, aceitável aos olhos
do público ou de nossa consciência moral. Mas
a realidade não é “cara ou coroa”,
é “cara e coroa”.
As situações da vida constantemente se apresentam
de modo ambíguo, paradoxal, diante de nosso pensar
racional, linear. As pessoas mais felizes em geral são
aquelas que tem maior capacidade para transitar entre os “pares
de opostos”, responsáveis por essas ambigüidades.
E para isso temos que abandonar um pouco nossa mente cartesiana
e ascendermos a mente holística, não em seu
sentido “transcedental”, mas no que realmente
significa: a percepção do todo, tanto no que
diz respeito ao tempo como espaço.
O que está certo hoje pode estar errado amanhã,
o que está errado aqui pode estar certo em outro lugar,
o que é bom pra mim pode ser ruim pra você. Por
isso algo pode ser igualmente bom e ruim num pensar holístico.
Assim, posso ter raiva de alguém que eu goste, ou seja,
não gostar de alguém que eu goste. Parece estranho,
não? Mas tenho certeza que essa idéia é
familiar a você que está lendo este texto. Estranho
e familiar ao mesmo tempo? Cara e coroa. De novo.
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